terça-feira, junho 03, 2008

Toquemos o órgão.

"Era lindo, mas eu tinha medo. Tinha medo de tudo quase: circo, palhaços, precipicios, ciganos. Aquela gente encantada que chegava e seguia. Era disso que eu tinha medo: do que nao era para sempre..."


Todo coração que se perde em sonhos, tão cedo ou facilmente, entrega-se a qualquer promessa de amor.

quarta-feira, abril 16, 2008

Ponto final. E eu já estou pronto para começar outra vez.

sexta-feira, abril 11, 2008

Nós

Na confusão desses dias,
não sei o que mais me confunde,
se é a confusa confusão em si mesma,
ou cada idéia que não se funde.

domingo, março 30, 2008

Oportuno oportunismo

Creio que ele aproveitou,
para invadir-se, algumas perguntas.
para desistir-se, alguns sonhos.
para subexistir-se, falsas crenças e amores.
para aprender a se amar, alguns dissabores.

Desconexos

Ela olhou para mim.
Eu olhei para ela.
E juntos ficamos de longe a nos contemplar.

Eu olhei pra ela.
Ela olhou para mim.
De longe mesmo nos separamos,
e ficamos juntos a chorar a tristeza sem fim.
Tudo o que eu quero é ver um sorriso verdadeiro estampado no rosto daquele que se diz feliz, bem sucedido. A felicidade é um estado de espírito, e como tal, efêmero. E como sem felicidade não há sucesso, este fica sendo uma grande mentira.

sexta-feira, março 21, 2008

Problema de grandeza



1 - Os seus textos são enormes, dão sono e preguiça de ler.





2- Será que se eu diminuir a fonte fica um pouco melhor para você?










segunda-feira, março 17, 2008

Fator surpresa

Enquanto caminhava por uma das aconchegantes praças de Belo Horizonte, certo dias desses, deparei-me com um indivíduo esquisitíssimo, um idiota. O nome da praça era "Liberdade". Praça da Liberdade. E acho que envolvidos ou determinados pelo clima do ser - livre emanado pelo público espaço em que estávamos, começamos a conversar.

É bem verdade que se fosse por mim jamais teríamos trocado qualquer palavra. Mas meu interlocutor era comunicativo demais, e quando eu nem bem sentei em um banco e perdi-me a ler um livro, ele logo apareceu e puxou assunto.

Começou comentando do tempo, do calor sufocante e outros assuntos meteorológicos mais, pois sim: o tempo é um dos melhores iniciadores de conversa que existe. Passados os frívolos comentários e as previsões para os dias e meses seguintes, ele partiu para o livro que eu estava lendo.

Perguntou sobre o que era, de quem era e para quê era. E eu, que timidamente tinha permanecido bastante em silêncio até então, desatei-me a contar a história do livro...

Ele me ouvia atentamente. Sugava todas as vírgulas, pontos finais e exclamações que eu dizia. Não me interrompeu um momento sequer, até eu terminar a longa narração. E quando enfim terminei, ele sorriu. Sorriu. De rasgar a boca e chorar.
Fiquei apavorado. Apavoradíssimo. Porque a história daquele livro era bastante parecida com a da minha vida. E se ele ria da história, ria de mim. Indaguei o motivo do riso e ele, após recompor-se respondeu:

"Você acha que já sofreu por amor, por não ser amado, mas possui alguém que o ama e, no entanto não é, ou finge não ser, capaz de amar. Você reclama dos poucos bem materiais que possui, mas tem tudo que pode ter. Reclama dos países que nunca visitou, mas os conhece muito bem de longe. Sente falta dos amigos que se vão, mas se recusa a ir com eles. Teme as palavras que podem ser ditas e diz ser amante do silêncio. Ignora o tempo, e ridiculariza a discussão de tal assunto, mas é um dos primeiros a olhar para o céu antes de sair de casa... Engraçado, não? E digo mais, sei de tudo isso porque vivi algo parecido, e felizmente compreendi. Amigo, permita-se! O idiota que você há minutos atrás encontrou em mim, também existe em você. Não porque tenhamos pouca inteligência, é claro, e sim porque não nos permitimos ver o dois onde há apenas um."

terça-feira, março 04, 2008

Verde-Clorofila

Completamente branca. Foi assim que ela primeiro me apareceu. No entanto, com o passar do tempo, inevitavelmente de azul se preencheu. Não era um azul uniforme, que na posterioridade pudesse esconder a sua origem branca. Eram, na verdade, traços finamente azulados, que juntos pareciam fazer algum sentido.

Fiquei a observá-la, e após contemplar visualmente a sua transformação, tomei-a nas mãos e fui sentir seu cheiro: um pouco de tudo, foi o único odor que consegui identificar. Desconfiei, então, do seu passado. Por guardar tantos cheiros assim, ela já devia ter sido tocada por muitos e muitas. Eu não.

Ignorei a advertência do olfato e pedi a opinião do meu tato: não cheguei a me admirar, confesso, ao sentir sua textura gasta e um pouco velha, que suavemente pude perceber. Ela possuía traços que, além dos azulados, revelavam que ali havia um bom bocado de vida vivida.

Foi então que percebi como aquela situação estava se tornando deveras estranha, por ela finalmente me parecer familiar. A cada novo olhar que eu a remetia, ela se tornava incrivelmente mais azul.

Parei de escrever.

E finalmente pude entender como eu era fortemente semelhante àquela folha de papel, que vazia e limpa aconteceu, e que com o passar do tempo e o gastar de tinta, de azul se preencheu.

É claro que, no meu caso, além do azul, muitas outras cores também me pintaram. Muitas delas eu jamais pensei que existiriam, e outras que, por serem tão exóticas, já nem me lembro dos nomes. Lembro do vermelho clichê do beijo de amor de uma paixão qualquer, do cinza nebuloso que por avisar a eminente chuva, me fez permanecer em casa, do azul-céu que hoje é tinta para caneta, do verde das árvores que perderam em exuberância para se tornarem meras folhas de papel, e de muitas outras.

Eu tinha, era me perdido nas cores, até em mim, não sobrar cor alguma.

Invejei, momentaneamente, aquela folha por ser agora apenas azul e branco, não sei por quê. Mas dei, em seguida, um sorriso monocromático, meio em preto e branco, ao lembrar que no passado eu fui tão colorido quanto ela foi. E que assim como eu, ela também possui apenas duas cores; ainda que em nossa essência guardemos um pouco do verde-clorofila, bem parecido com o da esperança em tornar-se multicor.

domingo, fevereiro 24, 2008

Amor próprio ou auto-amor. (Um é imprescindível, o outro deve ser necessário.)

Ela era a verdadeira personificação da pura perfeição. Contudo, era passível ao amor.

Qualquer elogio a ela aplicado era deveras inapropriado. Não porque eles não a bem vestisse, e sim porque a sua sublime e sutil superioridade fazia com que simples palavras se tornassem frivolidades.

Ela também nunca desejou o amor. De fato o repudiava e espoliava qualquer ato pertinente a esse tipo de afeição. “Para que amar e por que amar?” ela sempre se perguntava; e mergulhada no silêncio da resposta, sorria.

E sorriu diversas vezes até poder sentir nos suaves poros de sua pele as respostas que já não eram mais mudas. Percebeu que não era esplêndido amar e nem tão pouco muito. A troca nunca obedece à proporcionalidade e sempre o mais forte, quando mais intenso, torna-se inevitavelmente mais fraco.

Ela nunca lutou contra o amor que agora sentia. Jamais lutara contra qualquer coisa que a vida lhe propusera. Não eram desafios, mas exercícios cujo objetivo ela jamais cogitou questionar.

E então amou... Mas sabia que não era correspondida. E para não honrar o ser da mesma espécie, cujo poder de reciprocidade não o havia sido conferido, decidiu amar o amor, em sua plenitude apenas...

E percebeu que amar o amor era mais compensador do que qualquer outra coisa que já experienciara em toda a sua vida, pois não havia mares a atravessar, nem caminhos a percorrer. Bastava ficar ou simplesmente permanecer, e poderia deleitar-se com o sentimento que encerrara dentro de si mesma.

domingo, fevereiro 17, 2008

Suicídio?

Guitarra

"Punhal de prata já eras,
punhal de prata!
nem foste tu que fizeste
a minha mão insensata.
vi-te brilhar entre as pedras,
punhal de prata!
- no cabo flores abertas,
no gume, a medida exata,

exata, a medida certa,
punhal de prata,
para atravessar-me o peito
com uma letra e uma data.

A maior pena que eu tenho,
punhal de prata,
não é de me ver morrendo,
mas de saber quem me mata."


Cecília Meirelles

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Emaranhado de traumas e silêncio.

Mais do que caótica, a situação estava insuportavelmente insuportável: a mãe não falava com o pai, com o filho mais velho, nem com a própria mãe. O pai, por sua vez, além de não falar com a mãe dos filhos, não falava com o filho mais velho, nem com o mais novo. Este, coitado, não falava com o irmão e com a empregada; que não falava com a mãe da mãe, a avó, e nem com o filho mais velho. Para transmitir um recado então, era uma ladainha e a bendita mensagem tinha que percorrer um labirinto complicadíssimo.

Eles não tomavam café da manhã juntos. E não almoçavam, nem jantavam juntos também. Para assistir TV todos tinham o seu horário específico, e se caso se encontrassem diante da televisão, nenhum comentário, movimento, ou expressão facial acontecia.

O filho mais novo se machucou, foi atropelado por uma bicicleta - hospital! "Para quem devo ligar?" perguntou um enfermeiro. "Ligue para minha avó", respondeu com dificuldade, e deu o número.

Ao receber a notícia a avó contactou o pai do menino, que ligou para a empregada, e ela não perdeu tempo e ligou para a mãe. Correram todos para o hospital, e o que eufemicamente fora comunicado como um acidentezinho rotineiro transformou-se em algo muito mais grave, pois o garoto já convalecia de doença crônica e quando foi atropelado, bateu a cabeça no chão.

"Traumatismo craniano!" anunciou o médico.

Era hora de a família resolver os outros traumas também. Choraram juntos todos os quatros dias em que o garoto permaneceu nos hospital, e ficaram permanentemente abraçados quando receberam a noticia da morte.

Juraram perante o túmulo que jamais se separariam ou que brigariam outra vez. Choraram e se abraçaram mais algumas vezes, IN MEMORIAM. Mas esqueceram de avisar o irmão mais velho que viajava e com ninguém de casa falava.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Quarta-feira, ingrata?

Quarta-feira de cinzas, dia de recolher o que restou da fogueira do carnaval. Lavar o tênis sujo, a roupa suja, tomar um banho sacramental para dissipar todas as vibrações de desejo e pecado que fluíram tão bem durante essa época; Tornar-se são de novo.

Limpar os restos de confetes e serpentinas que sorrateiramente chegaram e permaneceram no quarto, e conferir se há qualquer vestígio de gliter colado na pele. É hora também de esquecer as marchinhas e os hits de carnaval e voltar ao mantra diário.

Não esquecer de tirar a máscara de colombina, que nesse entretempo compartilhou tanta alegria e produziu tantos risos e usar a, ou as, máscaras do dia a dia.

Tirar do rosto a maquilagem e deixar a pele finalmente respirar.

No fim de tudo é bom respirar também, deixar o corpo exalar o álcool e outras substâncias que foram alegremente ingeridas; Encher o peito de ar e com sorriso no rosto pensar: "Ano que vem tem mais”.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Quando o choro me cala as palavras, eu faço o bom uso de outras:


Aqui neste profundo apartamento

Aqui neste profundo apartamento
Em que, não por lugar, mas mente estou,
No claustro de ser eu, neste momento
Em que me encontro e sinto-me o que vou,

Aqui, agora, rememoro
Quanto de mim deixer de ser
E, inutilmente, [....] choro
O que sou e não pude ter.



Fernando Pessoa

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Tumdum!!!! Baragadum, baragadum, quiriguidum, quiriguidum.

Com ou sem amor, faça com segurança!

Bom Carnaval!





quarta-feira, janeiro 23, 2008

Estaticamente Estátua. Móvel e viva.

De repente parei. Estava absorto. Era noite e eu não conseguia enxergar quase mais ninguém na rua. Foi quando então, ouvi um barulho e a pulso ou por impulso me senti arremessado contra a mais próxima parede molhada e fria.

Perdi a noção de tudo.

Meu corpo tremia, mas eu não conseguia sentir nenhum dos meus membros - eu estava vivenciando tudo aquilo e nada podia fazer. Pensei em gritar, em transformar aquela rua em um grande mar de ecos e rezar para que alguém ouvisse qualquer uma das ondas que carregava minha voz. Mas foi aí que percebi o repentino bloqueio da minha respiração - e eu mal havia começado a insuflar os pulmões.

Não demorou muito para que meu estômago também protestasse aquele acontecimento e eu o senti embolar: era como se alguém estivesse virando uma página de um pesado livro dentro de mim, e junto com a página vinha uma quente corrente de ar, que trazia consigo um insuportável sabor de ácido e resto de comida.

Eu suava, pingava, meus olhos imóveis para fugir da cena tentavam encontrar um ponto fixo inexistente e eu estava totalmente incapaz.

Não sei quanto tempo tudo aquilo demorou, mas pelo grau de insuportabilidade eu poderia contar mais de mil voltas de um relógio.

Voltei a mim.

Senti o corpo pesado, a pele molhada e os olhos encharcados que deslizavam de um lado para outro...

Vomitei.

E depois de liberar uma grande quantidade de ácido e resto de comida, limpei a boca com as mãos. Mãos, que em seguida calaram-me o choro, a dor e o desespero.

Eu o vi ir embora.

Eu o vi ir embora.

E só então consegui me mover e me separar da única coisa que se manteve firme durante todo o tempo: a parede dura, molhada e fria atrás de mim.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

O ato da compadecida

Eu era aluno da sétima série do colegial e, por sinal, um mau aluno. Na verdade, se havia algo em minha vida ao qual eu não dava o menor valor era meus estudos. Todo o mais era diversão. O problema apareceu quando minha mãe me disse que se eu não fosse aprovado naquele ano eu iria para uma escola pública.

Pasmei! Pedi a ela que fizesse tudo menos aquilo, mas ela não cedeu. Decidi apelar e falei que não era minha culpa, que os professores eram os culpados e que eu tinha dificuldades de aprendizado. Ela me olhou séria como quem consegue dificultosamente ver o fundo do mar estando fora da água e me surpreendeu dizendo que iria ao colégio comigo no dia seguinte.

Eram oito horas quando minha mãe entrou na sala com o coordenador do colégio na sala dele. Eu tive que esperar do lado de fora. Mas como a hora passava e eu estava cansado de criar situações e suposições em minha mente, decidi espiar para ver o que estava acontecendo lá dentro.

Nem meia hora havia que tínhamos nos encontrado pela primeira vez e eu já estava de joelhos na frente dele. Vi quando meu filho entreabriu a porta e com mais vergonha e prazer ainda, continuei a dar àquele homem o maior e mais inigualável prazer que ele havia sentido até então. Mãe também é para essas coisas, e foi então que ele começou a tremer.

Que maravilha de profissão: trabalhar pouco e receber esses servicinhos extras. Que boca e que mulher! Ninguém jamais houvera feito nada assim comigo. Com tanta firmeza, suavidade e certeza. Não demorou muito, é verdade, mas após uma tremedeira que anormalmente me ocorreu, dei a maior gozada da minha vida.

Fechei a porta.

Voltei a mim e minutos depois minha mãe saiu da sala, me pegou pelo braço, me levou para casa e me disse que estava tudo bem.

Me masturbei como um louco naquela noite e no dia seguinte recebi a notícia de que havia sido aprovado no colégio.

Agora não sei se devo, ou não, agradecer à minha mãe.

terça-feira, janeiro 01, 2008

Feliz Ano Novo!

Feliz Ano Novo!
Embora os diferentes timbres de voz o meu ouvido já se acostumou com a sentença e então:
O que há de novo?
Olho ao meu redor e tudo ainda está igual.
Uso a roupa nova que agora é velha, comprada e usada na festa que começou no ano anterior.
Meus pensamentos, caducos, ainda persistem e nada transmutaram.
As pessoas, familia, amigos, os mesmos estranhos e desconhecidos.
Eu devo estar certo.
Feliz Ano Novo é uma frase arbitrária, de quem espera o que estar por vir baseado em esperanças depositadas no novo ciclo cósmico.


Chega de previsões a longo prazo.
Feliz Segundo Novo!
E vou tentar fazer aquilo que não fiz nesse segundo, registrado pelo meu relógio, e que acabou de passar.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Um descanso do caos é tudo o que eu quero. Um momento sem dor, sem alegria, sem lágrimas ou sorrisos. Um período completamente cheio de nada. Silêncio. As dores dos outros não me importam. Tampouco me comovem as minhas. Nesse mundo de louco em que todos se julgam sãos, eu sou mais um. Uma bilionésima centelha de um dado demográfico.
Se hoje você me disser que é triste, tão logo assim ficarei. Não por ter pena ou por fingir sentir sua dor, mas por saber que você é fraco por suportar tão pouco. Embora seja muito.
Também não venha me dizer que é a pessoa mais feliz do mundo e que o sol decidiu focar seu caminho por algum tempo, pois é pura quimera. O mundo é grande demais. Logo cedo uma nuvem se colocará na frente do sol e você logo é ofuscado. E já que sua felicidade o faz andar é melhor que evite as sombras das casas, prédios e árvores.
Sorria. E continue sorrindo. Mas saiba que mesmo que fosse feliz para sempre você jamais aguentaria manter essa expressão facial ilusitória.
Eu durmo.
Agora,
e me entrego à letargia.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Por incrível que pareça, e mais ainda, que "o" pareça, ele conseguiu manter o estado de paz que sentira outrora. Passaram-se um, dois e até três dias e ele ainda podia sentir as ondas do calmo mar que guardava dentro do seu ventre. Suas palavras soavam, agora, mais firmes e definidas. A atmosfera que o envolvia ficou menos densa e ele pôde caminhar com mais liberdade. Tudo ficou suave e ele protamente já recebia o retorno do Universo. Era bom estar assim, e como era...